Para Driblar Crise, Casas Modulares Viram Febre na Argentina com Custo de R$ 10,3 mil

Para Driblar Crise, Casas Modulares Viram Febre na Argentina com Custo de R$ 10,3 mil

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Ter acesso à primeira moradia na Argentina é, para boa parte da classe média, uma equação que não fecha. O crédito imobiliário voltou, mas seus requisitos excluem muitas pessoas; a construção tradicional custa entre US$ 1 mil a US$ 1,8 mil por metro quadrado (R$ 5,1 mil a R$ 9,3 mil), e os preços em dólares não recuam.

Nesse contexto, um fenômeno que circulava pelas redes sociais começou a ganhar forma concreta: as moradias modulares e industrializadas, que vão de cápsulas premium importadas da China a casas fabricadas em plantas industriais da Patagônia, estão redefinindo o acesso à casa própria.

Leticia Leites foi uma das primeiras argentinas a importar sua casa modular de 72 metros quadrados da China para um condomínio fechado na cidade de Santa Fe.

Attila

O custo total foi de US$ 700 (R$ 3,63 mil) por metro quadrado. O valor inclui impostos, certificações alfandegárias, honorários do despachante, seguros e os serviços de transporte e guindaste. Comparado ao custo da construção tradicional na mesma região, o preço é entre 40% e 60% menor.

O processo levou sete meses, desde as primeiras conversas com um representante de vendas chinês até a chegada da casa ao porto de Santa Fe. “O mais complicado foram os trâmites de importação, porque havia conflitos entre as normas de cada país”, explica Leticia.

Embora classifique a experiência como “positiva”, ela ressalta que, para ela, trata-se de uma solução temporária, até que possa construir sua casa pelo sistema tradicional, pois a vida útil estimada pelo fabricante para esses módulos é de 30 anos.

Por sua vez, Diego Jerez, empresário do comércio exterior, encontrou uma maneira de reduzir os custos relacionados à importação e passou a organizar compras coletivas.

“Se você quiser importar sozinho, os números não são os mesmos. Mas, se montar um grupo, o negócio fica bom”, afirma.

Atualmente, ele tem cinco contêineres em trânsito, e cada um comporta cerca de 16 casas. Dessa forma, um módulo básico de 18 metros quadrados entregue em Buenos Aires custa cerca de US$ 2.000, com tudo incluído.

No entanto, o próprio empresário define a solução como transitória e afirma que ela não é adequada para todos os territórios, já que os módulos não possuem cálculos estruturais para regiões sísmicas nem para áreas sujeitas a ventos extremos.

O segmento premium

No outro extremo do espectro está a Höli Haus, com um produto diferente daquele importado por Jerez: são casas-cápsula que chegam completamente montadas da China, com aço galvanizado de alta espessura, vidros duplos herméticos, piso radiante elétrico, vaso sanitário inteligente com função de bidê e ar-condicionado instalado dentro do volume da estrutura.

As unidades são certificadas para regiões sísmicas de até a Zona 4 — a categoria mais exigente, que inclui a província de San Juan.

O diferencial de qualidade tem reflexo direto no preço, que parte de US$ 41 mil (R$ 212 mil), mais IVA, para o modelo de 18,5 metros quadrados e chega a US$ 69 mil (R$ 357 mil) para o modelo de 38 metros quadrados.

Edifica NeuquénAs moradias modulares importadas podem reduzir em até 60% o custo do metro quadrado na comparação com a alvenaria tradicional

O pagamento é dividido em três parcelas: 30% na contratação, 30% após 60 dias e 40% quando a casa chega ao porto argentino. O prazo máximo de entrega é de 120 dias.

A casa chega montada em um caminhão de perfil baixo, é retirada com um guindaste e apoiada sobre blocos de concreto pré-moldado fornecidos pela Höli Haus. Não é necessário construir uma laje de fundação, e a instalação exige apenas uma tomada de 220 volts, uma entrada de água e uma saída para o esgoto.

A alternativa local é representada por Emilio Munarín, CEO da Attila — empresa de construção modular de Neuquén com quase cinco anos de atuação — e representante da Câmara Argentina de Construção Modular e Industrializada (CACMI) na Patagônia. Suas moradias são fabricadas com materiais 100% argentinos e montadas em prazos de 60 a 120 dias, dependendo do tamanho.

Munarín reconhece que os produtos importados podem custar entre 50% e 100% menos, mas alerta que “não possuem cálculos estruturais adequados para as diferentes regiões da Argentina e não contam com certificados de aptidão técnica”. Ele também destaca a importância do serviço de pós-venda local como um diferencial.

Regulação e financiamento

Para a arquiteta Carla Corea, especialista em regulamentação e gestão, a questão central não está na origem do material, mas nas exigências da prefeitura.

“A pessoa que quiser encomendar uma casa da China primeiro precisa ter certeza de que pode importá-la integralmente. Depois, precisa pedir ao fornecedor chinês todas as especificações técnicas: ventilação, iluminação e instalações elétricas. Porque a prefeitura vai verificar as condições de habitabilidade do imóvel, independentemente dos materiais utilizados”, explica.

Ela esclarece que atualmente não existe nenhum município que tenha estabelecido uma regulamentação específica para esse tipo de construção importada: “Existem casas pré-fabricadas produzidas aqui, assim como casas modulares argentinas. Mas, no que diz respeito à importação, não há regulamentação emitida por nenhum órgão. Tudo isso é muito novo”.

Até o momento, na prática, cada distrito decide caso a caso. Jerez lembra que, no início, alguns municípios de Córdoba e Mendoza rejeitavam essas estruturas, mas afirma que esse cenário mudou rapidamente.

Por sua vez, a Höli Haus já atuou em Bariloche, Comodoro Rivadavia, San Luis, El Calafate, Pinamar e Tigre, com condições diferentes em cada local.

AttilaO Banco Hipotecario já oferece crédito com taxas específicas para financiar até 100% do valor de moradias industrializadas

Outro ponto crítico é a situação registral. Legalmente, essas moradias costumam ser classificadas como bens móveis — porque podem ser transportadas —, o que as coloca em um registro diferente daquele dos imóveis tradicionais: o terreno é registrado em escritura, enquanto a casa é considerada uma benfeitoria que pode ou não ser declarada.

No âmbito do crédito, o Banco Hipotecario possui uma linha específica para moradias industrializadas que financia até 100% do valor.

O crédito é concedido em nome da pessoa física, e o banco libera os recursos diretamente para a empresa vendedora — que precisa estar previamente credenciada no programa —, a uma taxa de UVA + 15% e com prazo de até 72 meses.

O mapa argentino

Segundo dados da CACMI, existem atualmente cerca de 13 mil construções industrializadas em execução na Argentina. Neuquén é um dos mercados mais consolidados, devido à chegada constante de trabalhadores ligados à Vaca Muerta, o que transforma a construção modular em uma resposta rápida e estratégica. Na região, por exemplo, a Höli Haus avalia colocar em operação um projeto de 50 unidades voltado ao segmento gerencial.

Para Marcos Galián, produtor-geral da feira Edifica Neuquén 2026 — única exposição de construção e infraestrutura da Patagônia —, o fenômeno responde a uma necessidade estrutural: “O desafio atual é acompanhar o crescimento das cidades com infraestrutura. A construção industrializada oferece a flexibilidade necessária para desenvolver desde moradias até escritórios e estabelecimentos comerciais”.

O mesmo ocorre na Patagônia — onde o clima extremo e a distância encarecem a construção tradicional —, além de Córdoba e Mendoza, a ponto de esses sistemas já terem sido utilizados em hospitais de emergência e até em instalações científicas na Antártida.

Nesse contexto, os sistemas construtivos industrializados surgem como uma alternativa para ampliar a oferta em prazos mais curtos e reduzir a pressão sobre o mercado.

A grande vantagem da construção modular é permitir a produção em série, o que não apenas acelera o desenvolvimento de moradias, mas também de infraestrutura para setores tão diversos quanto saúde, educação e atividade industrial.

O mercado de moradias modulares na Argentina ainda é incipiente e não possui dados oficiais consolidados. A demanda, porém, é real, e os participantes do setor já operam com soluções que partem de um módulo básico de US$ 2 mil (R$ 10,3 mil). Em um país onde construir com tijolos se tornou caro e o crédito chega tarde, essa alternativa começa a ser vista como a resposta mais pragmática ao déficit habitacional.

Matéria publicada originalmente em Forbes Argentina
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Fonte original: https://forbes.com.br/forbes-money/forbes-real-estate/2026/08/casas-modulares-crise-argentina/

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